Novembro 2017

19/11/2017

A CLAUSTROFOBIA: O MEDO DE LUGARES FECHADOS





Na claustrofobia, ou medo de lugares fechados, as impressões psíquicas tornam-se físicas: o ambiente “encolhe”, o teto teima em aproximar-se, as paredes comprimem-se, as pernas e as mãos tremem desmesuradamente, o suor escorre, a boca seca e o coração parece querer ser o primeiro a sair dali, furando o peito. Os elevadores são a ilustração costumeira deste tipo de fobia.

            Medo de lugares fechados, abertos, multidão, escuro, altura, entre outras fobias, são reações normais que servem para qualquer ser racional distinguir o que é perigoso ou não. O exagero, porém, pode ser um distúrbio psíquico, mas a cura é possível. Quem ainda não sentiu medo? Fobias, como outras doenças da mente, sempre existiram desde as épocas mais primitivas. Sem dúvida, o medo nos tempos pré-históricos era totalmente diferente. Já na atual sociedade moderna, há pessoas que têm pavor de dentista, avião, montanha russa, altura, entre outros, que são reações psicossomáticas inerentes do organismo diante do perigo iminente, causando sudorese, pânico, o aumento da adrenalina, dos batimentos cardíacos etc.

            Há muitas pessoas, contudo, que têm um medo muito exagerado diante de algumas situações do dia-a-dia, principalmente de locais fechados, como elevadores, comboios ou aviões, por exemplo. A fobia também pode estar presente quando a pessoa se encontra cercada por uma multidão. A claustrofobia, todavia, não é uma doença, mas um sintoma, geralmente acompanhado de um distúrbio conhecido como Agorafobia - o medo de estar em um lugar público lotado de pessoas, de onde o indivíduo não pode sair facilmente, caso se sinta mal.

            As fobias podem ser classificadas em dois grupos. No primeiro, encontram-se as fobias comuns, ou seja, aquelas cujos sinais são o medo excessivo de coisas que todos, numa certa medida, temem, como por exemplo, alguns tipos de animais, a escuridão, a morte, as doenças etc. No segundo, o medo está ligado, não a um objeto específico, mas sim a um certo ambiente, como é o caso das agorafobias. São fobias contingentes, de natureza contextual, ou seja, manifestam-se dentro de um contexto.

            É muito comum haver confusões na comparação entre Agorafobia e Claustrofobia. Pensa-se que a primeira seria o medo de espaços abertos e, portanto, o contrário da segunda, o medo de espaços fechados. Agorafobia não é medo de espaços abertos como normalmente dizem, mas medo de lugares cuja fuga é embaraçosa ou difícil que, muitas vezes, pode ser um espaço amplo, como uma estação do metro ou um estádio de futebol. "A confusão deve existir pelo fato de que espaços públicos são lugares amplos e geralmente abertos, mas não é o caso do metro que é confinado. A afirmação de "que um é contrário do outro" não é verdadeira porque uma pessoa com fobia de elevador pode ter tanto uma Agorafobia como uma Claustrofobia", explica a psicoterapeuta e diretora do Instituto de Psicoterapia Avançada, Maura de Albanesi.

            Outra confusão pertinente é porque as crises acontecem, geralmente, em lugares fechados e também pelo fato de que os conceitos são muito semelhantes (Agorafobia - medo de lugares de difícil escape e Claustrofobia - medo de lugares fechados). Se a pessoa tem medo de elevador somente por ser um espaço confinado é uma Claustrofobia. Se, entretanto, o indivíduo tem medo de passar mal (o que não significa necessariamente estar preso na cabine) e não ser socorrido, caracteriza-se um medo antecipatório, típico da Agorafobia.

            Mesmo alguns segundos diante de um contexto claustrofóbico são suficientes para desencadear um complexo de sintomas nas vítimas deste transtorno. Elas passam a evitar estas situações, consideradas como de risco. É difícil avaliar quais as causas deste problema, pois elas podem ser múltiplas. Aqueles que sofrem de qualquer tipo de ansiedade têm uma tendência maior a apresentar este distúrbio, pois qualquer vivência de um trauma em um lugar fechado pode ser o estímulo inicial para desenvolver nestas pessoas este gênero de fobia. "Geralmente, estas pessoas se isolam e evitam locais que possam gerar contextos claustrofóbicos, pois se deixam dominar pelo medo, recolhendo-se a lugares nos quais se sentem mais seguros", explica a psicoterapeuta.

            Tratamento - É fundamental, assim, tratar este transtorno, para que ele não se agrave e evolua para outras doenças psíquicas. Neste sentido, é importante aliar a psicoterapia com antidepressivos. A psicoterapia tem como objetivo de reestruturar a mente, identificar os medos e trabalhar os aspectos irracionais de cada um deles. "A cura completa é, sim, algo bem real e possível. Tanto o claustrofóbico quanto seus familiares devem aprender a aceitar esta realidade. Só assim será possível eliminar de vez estes incômodos efeitos do cotidiano muitas vezes massacrante da nossa civilização. O autoconhecimento e a compreensão de si mesmo podem ajudar o paciente a se libertar desta e de outras fobias", completa Maura.
Em sua grande maioria, os claustrofóbicos têm medo de morrer, não possuindo, portanto, o específico medo de lugares fechados. Os pensamentos ligados a esses pacientes adquirem grande importância no diagnóstico da patologia e, neste caso, o medo de morrer por falta de ar é o mais recorrente. “Às vezes, a pessoa não tem medo de avião, mas tem fobia de ficar presa nesse lugar, pois, caso aconteça algum problema, ela não tem para onde ir.

            Apesar de ainda não ter sido elucidadas as reais causas das fobias, sabe-se que existe aí um componente genético, visto que mais de 70% das pessoas fóbicas possuem parentes com este mesmo problema. Exposição a situações semelhantes às que provocam medo, repressão sofrida no passado, dentre outros fatores, também podem estar relacionados. As manifestações da doença geralmente têm início na infância, e devem ser tratadas, já que tendem a se agravar com o passar dos anos; e causam situações de desconforto à pessoa, podendo interferir em suas relações sociais.

            Há cerca de seis meses, o estudante de Administração Fábio Andrade, 23, sofre de claustrofobia. Ele evita elevadores, teme escadarias escuras e apavora-se diante da improvável possibilidade de ficar preso dentro do banheiro. Para Fábio, mesmo uma janela fechada pode ser sufocante. “Tenho a impressão de que vou desmaiar, o coração dispara, a mente fica retorcida e a visão embaça”, conta.

            De onde vem isso? A claustrofobia de Fábio surgiu de repente e ele ainda não conseguiu descobrir o motivo do trauma. De fato, nem sempre é fácil encontrar a razão, já que não há uma causa única. Segundo o psiquiatra Gilson Volpe, “pessoas naturalmente ansiosas ou de fundamentos reativos têm uma predisposição a desenvolver o transtorno”. Para alguém com essa personalidade, experiências traumáticas em lugares fechados são o estopim. A presença de alguém claustrofóbico na família também pode dar início ao que os psicólogos chamam de aprendizagem por modelação. Algumas correntes ainda apontam como uma das causas da fobia a repressão de impulsos sexuais e sentimentos de culpa.

            Afastar-se do mundo, obviamente, não é a melhor maneira de enfrentar este pavor irracional. Este é um daqueles transtornos em que a psiquiatria e a psicologia andam de mãos dadas. Segundo o psiquiatra Gilson Volpe, existem dois grupos de medicamentos mais recomendados para o tratamento da claustrofobia, os ansiolíticos e os antidepressivos. “Eles inibem a recaptação da serotonina, responsável pela ansiedade”, traduz. Os resultados costumam ser rápidos, mas há riscos do medo voltar a se manifestar ao interromper a medicação.

            Por conta disso, o tratamento psicológico é de suma importância para a cura da claustrofobia. A psicóloga Sonia Maeda aconselha a terapia focal por meio da abordagem comportamental. Nessa linha terapêutica, o claustrofóbico se submete a efeitos de relaxamento, abrindo a porta para o psicólogo o conduzir a uma reestruturação cognitiva. “É preciso montar uma hierarquia dos medos, desde o mais terrível até o menor, e trabalhar a irracionalidade de cada item. A partir daí, o psicólogo incentiva o paciente a se expor às situações que ele considera de risco”, informa Sonia, referindo-se ao método conhecido por dessensibilização sistemática.

            Sem dúvida, não se trata de um transtorno dos mais simples, pois traz muitos impedimentos. Mas o claustrofóbico pode, sim, conseguir cura completa. Para isso, é muito importante detectar as raízes do medo e, como afirmou Sonia, expor-se pouco a pouco a eles.

            A duração do tratamento psicológico varia de acordo com o grau da fobia e de como ele mesmo pretende se ajudar. Vale lembrar também o papel da família em aceitar o medo como parte de um comportamento doentio, sem criticá-lo. Ao final da terapia, associada às medicações, é possível fechar as portas deste medo irracional de uma vez por todas.

            É indicado que o paciente pratique exercícios, tenha uma alimentação balanceada e acompanhamento terapêutico, a fim de reduzir o estrepe e aumentar a auto-estima e confiança – imprescindíveis para o sucesso do tratamento.

             Uma técnica amplamente utilizada é a da auto-exposição, na qual o indivíduo fóbico enfrenta de forma gradual as situações que lhe causam medo, podendo se recuperar completamente ao final do tratamento.


PROF. KIBER SITHERC 
http://professorkibersitherc.blogs.sapo.pt/59958.html


6 maneiras de treinar seu cérebro para lidar com a ansiedade, mal que afeta 13 milhões de brasileiros



                                                                                                              GETTY IMAGENS

Sofrer com a ansiedade é mais comum do que muitos imaginam: somente no Brasil, cerca de 13,3 milhões de pessoas têm distúrbios de ansiedade, doença que atrapalha relacionamentos, desempenho profissional e o bem-estar físico e emocional do indivíduo.
No ano passado, 6,4% da população brasileira sofria com transtornos do tipo, bem mais que a média global, de 3,9%, de acordo com estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Mas o que é um transtorno de ansiedade e como diferenciá-lo da ansiedade natural? De acordo com Olivia Remes, doutoranda e pesquisadora do Departamento de Saúde Pública e Cuidados Primários da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, transtornos de ansiedade generalizada são caracterizados por sensações frequentes de medo, inquietação, e de "sentir-se no limite".

"Quando uma pessoa tem um prazo apertado ou uma emergência no trabalho, ela se sente ansiosa e isso é normal. Mas há pessoas que se preocupam com cada ponto de suas vidas e não conseguem se livrar disso", explica. "Pessoas com esse transtorno se preocupam muito mais frequentemente e com mais intensidade que aquelas com uma boa saúde mental."

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Apesar dos distúrbios de ansiedade serem um problema sério, que muitas vezes demanda acompanhamento com especialistas, é possível desenvolver habilidades para lidar com o transtorno.
Abaixo, Remes compartilha diferentes estratégias para enfrentar o problema, com base em um estudo recente que liderou.

1. Monitore os seus pensamentos
Quem sofre com transtornos de ansiedade geralmente se vê tomado por pensamentos negativos que invadem a mente sem aviso. "Pessoas com transtornos de ansiedade são pessimistas. Elas acreditam que algo ruim está prestes a acontecer, mesmo que não haja nenhuma evidência que aponte para isso. Elas temem o futuro e acham muito difícil evitar esse tipo de preocupação", descreve a pesquisadora.

Para contornar tal situação corriqueira aos ansiosos, Remes sugere não lutar contra os pensamentos negativos, mas escolher uma hora do dia como o "momento da preocupação" e se permitir um período limitado de tempo para ruminar. Como exemplo, Remes recomenda designar o horário das 16h para as preocupações e dar a si mesmo 20 minutos para preocupar-se.

"A literatura psicológica mostra que nossos pensamentos murcham se não os alimentamos com energia. Ao empurrar esses pensamentos para um outro momento do dia, quando você chegar no momento designado para a preocupação, eles talvez não pareçam tão confusos ou preocupantes como pareciam quando brotaram em sua mente pela primeira vez", explica Remes.

2. Faça atividades físicas e pratique meditação
A famosa citação latina "uma mente sã num corpo são" não é gratuita. Saúde mental e física são codependentes, afirma Remes, e a prática de exercícios físicos é um aliado essencial para o bem-estar psíquico. Em conjunto com exercícios regulares, a meditação consciente também pode ajudar mentes ansiosas.

Um estudo da Universidade de Nova Jersey, publicado recentemente na revista Nature, mostrou que apenas duas sessões semanais de meditação e atividades físicas, de 30 minutos cada, reduziram drasticamente sintomas depressivos nos 52 participantes da pesquisa. Os pesquisadores concluíram que, ao cabo de oito semanas, além de auxiliar aqueles com depressão, a prática também poderia ser útil para aqueles que tendem a ruminar pensamentos, algo comum entre os ansiosos.
"Eu realmente fiquei muito surpresa com esse estudo, com o quanto essas mudanças de hábito podem ter um impacto tão grande", afirma Remes. "Quando você se exercita, você diminui seus níveis de ansiedade e você tem mais energia. Você simplesmente se sente melhor como um todo", aponta.

3. Encontre um propósito - nem que seja cuidar de seu animal de estimação
Em 1946, o médico austríaco Viktor Frankl publicou o livro Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração, no qual narrou suas experiências como prisioneiro em Auschwitz. Frankl também analisa a resposta psicológica de diferentes prisioneiros expostos ao campo de concentração nazista e argumenta que encontrar sentido no cotidiano é uma forma de lidar com a adversidade.

De acordo com Remes, pessoas com distúrbios de ansiedade muitas vezes não conseguem identificar um propósito claro em suas vidas e nem sempre acreditam que vale a pena investir esforços para endereçar os desafios que encontram. Em seu estudo recente sobre níveis de ansiedade em mulheres que vivem em situações de privação econômica, Remes encontrou que aquelas que tinham senso de coesão, de propósito e que enxergavam sentido em suas vidas, tinham menos distúrbios de ansiedade, mesmo vivendo situações difíceis.

Para a pesquisadora, as lições de Frankl, mesmo extraídas de uma experiência dramática, são um mecanismo útil para aqueles que sofrem com ansiedade. "Nos relatos de Frankl, um traço de personalidade que diferenciava os prisioneiros eram aqueles que conseguiam manter um propósito mesmo naquela situação. Para um era saber que sua filha o aguardava, então ele precisava sobreviver para ela e isso lhe deu esperança. Para outra, era saber que ela tinha um trabalho importante para finalizar", afirma.

No cotidiano, ter a sensação de que você é necessário para a vida de outra pessoa ou para uma atividade específica auxilia na construção de propósito. Tal senso de conexão pode ser traduzido em atividades de voluntariado, em cuidados com um familiar enfermo, na educação de uma criança ou mesmo nos cuidados com um animal de estimação, aponta Remes.
"Quando você coloca seu foco em algo além de você, esse ato te ajuda a dar um tempo de si mesmo", explica. "Ter outras pessoas em mente é muito importante, porque torna um pouco menos penoso passar pelos momentos mais difíceis."

4. Veja o lado bom da vida (por mais que isso seja desafiador)
Por mais clichê que possa soar, adotar uma atitude positiva perante à vida, com foco nos aspectos bons ao invés dos ruins, é essencial para lidar com a ansiedade. Para domar a mente e espantar os pensamentos negativos, Remes recomenda olhar para elementos que te dão prazer, ao invés daqueles que te irritam ou que te deprimem.
Embora controlar quais pensamentos te veem à mente seja impossível, é possível dialogar com eles uma vez que se fazem presente. Se, ao chegar em um ambiente, algo negativo te chamar a atenção, busque encontrar algo que seja positivo. Se no caminho para o trabalho o trânsito estiver estressante, busque ouvir uma música que te conforte - ou mesmo mude a maneira de se deslocar ao trabalho. Essa atitude positiva perante os pequenos momentos da vida tendem a reverberar também no bem estar emocional do indivíduo, aponta Remes.

Nas situações em que pensamentos negativos intensos invadem a mente, focar em outras atividades do corpo, como a respiração, também é uma forma de amenizar seus efeitos. "Reconheça que esses pensamentos catastróficos que vêm à mente, que te fazem se sentir péssimo, são apenas eventos mentais que irão passar", diz Remes.

5. Viva no presente
A prática de ruminar pensamentos e ser constantemente tragado por memórias do passado tende a alimentar a ansiedade. Preocupar-se com o que pode ocorrer no futuro também pode deixar o indivíduo mais ansioso. Embora muitas vezes esses pensamentos sejam difíceis de controlar, Remes aponta que é importante manter um foco constante no que você está fazendo agora.
"Estudos mostram que, quando nós vivemos no passado, revivendo memórias antigas, essa atitude nos deixa depressivos e menos felizes. Na verdade, ficamos mais felizes quando vivemos no momento presente. Se você está trabalhando, simplesmente foque naquilo que você está fazendo. Simplesmente viva no presente", diz.

6. Busque terapia
Nem sempre é possível lidar sozinho com distúrbios de ansiedade, e a terapia é uma grande aliada para melhorar a saúde mental. Em casos assim, uma possibilidade é a terapia cognitivo-comportamental, cujo princípio básico é buscar uma postura construtiva do paciente.
Nesse sistema de psicoterapia, a hipótese central aponta que a forma como entendemos eventos internos e externos - e não o evento em si - é que determina nossas respostas emocionais e comportamentais.
De acordo com Remes, a solução é preferencial ao consumo de medicamentos, quando for possível optar. "Em muitos casos, medicamentos não funcionam, ou funcionam apenas no curto prazo e os problemas retornam depois de um tempo", aponta. Para a pesquisadora, trabalhar para desenvolver habilidades de enfrentamento à ansiedade e buscar terapia são as melhores formas de lidar com o transtorno.